quinta-feira, 11 de maio de 2017

Ainda sobre a empatia

Estava reparando que em algumas situações a empatia surge em mim muito facilmente, enquanto em outras tenho que fazer um esforço grande para conseguir acolher a dor do outro de forma empática. Levei um tempo para entender a diferença e quando entendi percebi que é muito óbvio o que acontece.

Quando a pessoa se encontra em uma situação que a meu ver é mais difícil do que a minha, tenho uma reação quase que automaticamente empática. Este "mais difícil do que a minha" é uma avaliação feita com base nos meus valores, minhas prioridades, minha história de vida. Eu comparo aquele momento da vida dela com a minha vida e imagino que estar no lugar dela seja mais sofrido do que estar no meu. A tristeza da pessoa torna-se muito nítida aos meus olhos e quando eu sou capaz de compreender a tristeza do outro eu consigo ter empatia por ele.

Em outros momentos a pessoa me relata uma situação que a faz sofrer e o meu impulso é mostrar a ela que a situação não é tão grave assim, é mostrar o lado bom. Eu sinto vontade de dizer coisas que eu aprendi na faculdade de psicologia a NÃO dizer. Falas que diminuem a dor do outro, que não oferecem acolhimento nem compreensão. Percebi que esse impulso surge em mim quando a pessoa me relata algo que me parece menos sofrido do que a situação em que eu me encontro. Novamente, menos sofrido de acordo com meus valores, prioridades, história de vida. Quando a situação em que o outro se encontra chega a ser desejável para mim se comparada àquela em que eu me encontro, oferecer uma escuta empática exige um esforço muito grande.

Nessa segunda situação, mesmo quando eu consigo elaborar uma fala empática a impressão que tenho é que ela soa artificial. Tenho dúvidas se sou capaz de fazer com que chegue aos ouvidos do outro da maneira que eu gostaria que chegasse. E em alguns momentos eu simplesmente não consigo falar nada que me pareça minimamente acolhedor.

Perceber isso me colocou frente a um desafio muito maior do que eu achei que estava enfrentando. Não me basta a compreensão intelectual de que só o outro é capaz de dimensionar seu próprio sofrimento, de que sentimento não se compara; não me basta pensar dessa forma. Para ser realmente empática com toda e qualquer pessoa eu preciso sentir dessa forma. 

Não se trata simplesmente de aprendizado, não é apenas sobre o que ou como fazer. É um trabalho de desenvolvimento pessoal muito grande. Se eu não tiver essa disposição interna para ser mais empática, não há nenhum método ou artifício que faça com que eu me relacione com as pessoas de forma genuinamente empática.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Todo mundo erra

*texto escrito em abril/2015 e publicado inicialmente no meu blog antigo 

Eu tento sempre tratar meus filhos com respeito e carinho, mas às vezes eu erro.

Ultimamente, com um bebê de dez meses que ainda acorda à noite, tenho ficado bem cansada física e emocionalmente. Dormir pouco me deixa irritada e tenho perdido a paciência com as crianças com mais facilidade.

Esta semana estávamos entrando no carro e meu filho jogou o material da escola em cima de umas sacolas de mercado com coisas frágeis. Eu explodi: "Poxa, você não está vendo as sacolas? Como você joga suas coisas assim em cima sem saber o que tem dentro?". E ele me respondeu: "Nossa! Eu não vi, precisava gritar?". Pedi desculpas e disse que não, não precisava gritar. Expliquei que estava nervosa com outras coisas e acabei descontando nele. E ele me disse: "Tá tudo bem, mãe".

Eu já pedi a eles várias vezes para não gritarem um com o outro. Disse que às vezes eu perco a paciência e acabo gritando mas que não quero fazer isso e caso aconteça eu gostaria que eles chamassem a minha atenção pois eu estou errada. E eles fazem. Eles me cobram para que minhas atitudes sejam condizentes com o que peço a eles. 

Uma coisa que eu tenho feito também é avisá-los quando percebo que estou começando a ficar irritada. Alguns períodos do dia são mais tumultuados aqui em casa, momentos em que estou sozinha com os três e tentando fazer várias coisas ao mesmo tempo. Nestas horas, quando eles começam a insistir muito para que eu pare o que estou fazendo para atender um pedido deles que pode esperar eu acabo perdendo a paciência, sendo grossa. Então comecei a dizer assim: "Olha, agora está difícil, não dá para eu parar o que estou fazendo. Eu estou ficando irritada e quando fico assim eu acabo te tratando de um jeito que eu não gosto. A gente pode deixar isso pra depois?". Geralmente eles entendem e até perguntam se podem fazer alguma coisa para me ajudar. Eu tenho minhas limitações e acho importantíssimo que eles saibam disso.

Eu percebo que a maioria das pessoas tem muita dificuldade para admitir seus erros e suas fragilidades, principalmente com as crianças. Acho que há uma cobrança muito grande para ser a mãe e o pai perfeitos, que nunca erram. Quando erram disfarçam o erro, fingem que não foi nada demais, como se reconhecer-se falível fosse abalar a "autoridade" dos pais junto aos filhos (não gosto da palavra autoridade pois me vem a ideia de hierarquia, algo que eu acho que não deveria existir dentro de uma família). Por outro lado, quando a criança "erra", quando seu comportamento foge do esperado pelos pais, isso logo é apontado por eles. Deve ser muito difícil sentir-se a errada e imperfeita convivendo com estes pais que não erram nunca.


Eu não sei qual a utilidade de manter no imaginário da criança esta figura idealizada de pai e mãe. Acredito que a criança tenha muito mais a aprender com pais reais, que erram, reconhecem o erro, se arrependem e pedem desculpas. Admitir que somos imperfeitos nos torna pessoas mais tolerantes. E as crianças aprendem também a ser tolerantes e compreensivas com os próprios erros e com os dos outros.

Será que eu sou uma farsa?

*texto escrito em dezembro/2015 e publicado inicialmente no meu blog antigo 

Nem sempre eu consigo colocar em prática aquilo em que acredito. Quando eu ajo em desacordo com o que penso ser o melhor fico me perguntando: eu tenho o direito de escrever sobre isso, defender esta ideia sendo que eu mesma não estou conseguindo agir de acordo com o que falo?

Às vezes fico com um texto pronto sobre como criar os filhos com respeito e empatia, mas não consigo publicar porque no dia anterior perdi a paciência e gritei com as crianças.

Será que eu sou uma farsa?


Tenho pensado muito nisso e me fiz a seguinte pergunta: por que eu escrevo este blog? Para passar uma imagem de mãe modelo? Para ser vista como a prova viva do sucesso da teoria posta em prática? Não. Para falar a verdade tenho até medo de que me vejam assim. Porque eu não sou assim.

Eu escrevo para compartilhar com outras pessoas aquilo que tenho aprendido com as minhas leituras, atendimentos, experiências pessoais. Escrevo para dividir com quem me lê os questionamentos que me faço e as respostas que tenho encontrado. Escrevo porque acredito que algumas coisas que eu sei podem ser úteis para outras pessoas assim como têm sido úteis para mim (coisas que eu ficaria muito feliz se eu tivesse descoberto antes). O objetivo deste blog é ser uma fonte de apoio para quem busca informação relacionada aos temas que aqui abordo.

Entretanto, informação é apenas um tipo de apoio. No que diz respeito à maternidade, muitas vezes temos dificuldade em agir de acordo com o que acreditamos devido ao desgaste físico e emocional. Não é fácil ouvir e acolher tudo o que um dos filhos tem para dizer enquanto o outro te puxa pela barra da saia chorando desesperadamente. Não é fácil brincar com a criança do que ela quer, pelo tempo que ela quer, quando a louça transborda na pia e o jantar precisa ser preparado. E não é fácil pensar numa solução, numa maneira de conciliar tudo isso quando não temos um momento de silêncio para colocar as ideias no lugar.

Ter informação sobre a melhor forma de agir não necessariamente vai mudar a forma como a pessoa age. Para que a informação seja útil é necessário que esta mãe (ou pai, tia, avós) tenha apoio nas coisas práticas do dia-a-dia e tenha suporte emocional. Quando eu não preciso carregar todas as tarefas domésticas nas costas sozinha, quando eu tenho alguém que me ouve e acolhe meus medos, minhas inseguranças, é mais provável que eu consiga rever minhas ações de forma crítica, assimilar novas informações e pensar em mudar.

Escrever e poder reler o que escrevo em outro momento é mais uma forma de me lembrar do que norteia as minhas ações quando eu me perco no meio do turbilhão de culpas e arrependimentos que batem à minha porta.

Se você lê o que eu escrevo e diz para si: eu queria fazer isso tudo, eu queria ser uma mãe melhor, mas é tão difícil... Dá um abraço aqui! Eu também queria, eu também acho difícil. Continuo querendo e me esforçando para isso.

Ter a cabeça tranquila para criar bem os filhos é um privilégio. Nem todo mundo tem. E mesmo quem tem, não tem o tempo todo.

Não vamos tapar o sol com a peneira

*texto escrito em maio/2015 e publicado inicialmente no meu blog antigo 

A maioria das pessoas têm uma dificuldade muito grande para lidar com a perda. A morte de alguém, o término de um relacionamento, o fim de um sonho. A tendência é sempre fazer algo para desviar a atenção daquilo que aconteceu.

A criança fica triste porque o cachorrinho de estimação morreu. O que os pais fazem? Arrumam outro cachorro para colocar no lugar do que se foi.

A pessoa termina um namoro de anos, fica mal, chorando inconsolável. O que os amigos fazem? Chamam para sair, se distrair e não pensar no que aconteceu.

O indivíduo não consegue passar no concurso para o qual estudou durante todo o seu tempo livre no último ano. O que as pessoas dizem para "consolar"? Ah, não fica assim, agora é pensar no próximo.

O que estas atitudes têm em comum? 

Em todas elas o objetivo de quem presencia o luto é tirar o foco do sentimento que se apresenta no momento, é criar uma situação agradável ou trazer um pensamento feliz no intuito de deixar a tristeza de lado.

O problema é que este lado não é o lado de fora. Muito pelo contrário. Essa tristeza deixada de lado, fica do lado de dentro, escondidinha num canto, censurada, impossibilitada de sair pela via mais saudável, que é a fala, procurando outra forma de se expressar. Não dar voz a essa tristeza é tapar o sol com a peneira.

É importante que a gente permita que a tristeza exista, que ela possa ser sentida e expressa. Não é gostoso, não é agradável, mas é preciso. 

Expressar essa tristeza, desabafar, não necessariamente fará com a pessoa fique feliz como consequência, mas a ajudará a lidar com a situação de forma mais serena. 

Como escreveu o Luis César Ebraico:


"Felicidade é algo por demais dependente de circunstâncias que escapam ao nosso controle. (...) A serenidade – não a felicidade – frente aos fatos da vida, sejam eles prazerosos ou desprazerosos, é uma das características universais da saúde psicológica (...)"

Pode chorar

*texto escrito em novembro/2015 e publicado inicialmente no meu blog antigo 

Meu filho está com 1 ano e 3 meses. Cai e se machuca o tempo todo. Comecei a reparar na minha reação quando isso acontece e não gostei do que vi.

Quando ele se machuca e sente dor, ele chora. O que eu costumava fazer? Pegava no colo e logo procurava algo para distraí-lo. Procurava um brinquedo ou um livro que ele gosta e começava: "Olha o passarinho, olha o cachorrinho!". Fazia graça para ele rir. E logo ele começava a prestar atenção no que eu estava mostrando e parava de chorar. E eu ficava aliviada, ufa, passou!

Dá um aperto no coração quando um filho chora. O choro nos mostra que está doendo. É natural que a gente queira que pare de chorar. Só que parar de chorar não significa que parou de doer ou que ele esqueceu o que acabou de acontecer. Fazer a criança parar de chorar quando ela tem vontade de chorar é reprimir a expressão do que ela sente. No caso do meu filho que ainda não fala, é reprimir a única forma que ele tem de expressar aquilo que o machuca. 

Eu fazia isso de forma automática, sem pensar, e estou tendo que prestar muita atenção para parar de fazer. Pois é, informação não é tudo, é difícil quebrar um hábito.

Outro dia eu estava observando um menino um pouco maior, de uns 3 anos, falando orgulhoso: "Eu caí e nem chorei!". E o adulto respondeu: "Você é muito forte!". Eu sei que a intenção é das melhores, mas qual a mensagem que a gente passa com essa frase? Que quem chora é fraco, que cair e chorar é ruim, que mesmo se estiver doendo é melhor engolir o choro porque isso é ser forte!

Qual a consequência disso? Quando a gente ensina a não chorar, a criança aprende a não chorar. Isso é bom? Pode até ser bom para quem está perto e não sabe lidar com o choro, mas para a criança certamente não é. 

Mas tem conserto. Vou contar uma outra cena que presenciei. Um grupo de crianças de uns 6 anos estava brincando, uma delas cai. Eu estava a alguns metros de distância e me virei para olhar quando ouvi o barulho. Parecia ter batido a cabeça no chão meio forte. A criança se levanta e finge que nada aconteceu. A cuidadora que estava ao lado, se abaixa perto dela e pergunta se machucou, ela nega, visivelmente segurando o choro. A cuidadora insiste: "Olha, pelo barulho que fez, parece que você bateu forte no chão. Se estiver doendo e você quiser chorar, você pode". A criança abraça a moça e começa a chorar. Eu quase chorei junto.


Às vezes não basta ouvir o que a criança diz. A gente precisa ter sensibilidade para ouvir o que ela não diz e deixar que ela expresse o que não estava se permitindo sentir. E não vale só para criança. Quando estou triste e vou conversar com alguém sobre o que estou sentindo, nada me faz melhor do que um "pode chorar". É infinitamente melhor do que um "não fica assim, vai passar". Recomendo.

Empatia

*texto escrito em novembro/2015 e publicado inicialmente no meu blog antigo 

Terminei de assistir a primeira temporada de Sense8 e fiquei com vontade de escrever sobre empatia. Para quem não assistiu ainda, texto sem spoiler, ok?

A série conta a história de oito pessoas que se encontram conectadas entre si a ponto de sentirem exatamente o que o outro sente, apesar de todas as diferenças que os separam. 

É ficção científica, claro. Na vida real conseguimos no máximo imaginar como nos sentiríamos caso estivéssemos passando pela mesma situação que o outro, mas nunca vamos conseguir sentir o que ele sente de fato. Mesmo que eu já tenha passado por uma situação igualzinha nada me garante que o que eu senti é igual ao que ele sentiu.

Mas não é sobre isso que eu quero falar. Não sobre a capacidade de sentir empatia, mas sobre a disponibilidade interna para empatizar com o outro. Era algo que já vinha passando pela minha cabeça e um diálogo na série casou com o que eu estava pensando.

Dois personagens estão conversando, vou chamá-los de A e BA está sofrendo com uma perda terrível enquanto B se encontra em uma situação de perigo, precisando da ajuda de A para sair dela. B explica que precisa da ajuda de A, fala do risco que estão correndo, mas A está sentindo uma dor tão grande que não consegue ouvi-lo. Até que B diz o seguinte:

“Eu sei o quanto isso dói. Sei que você quer deitar aqui e nunca mais levantar. Sei porque também sinto isso. Eu posso sentir isso.”

Eles se olham e choram. Em seguida B diz:

“Isso significa que de alguma forma em algum lugar você também sente o que estou sentindo.”

E então A consegue ouvi-lo e ajudá-lo.

Tudo acontece muito rápido. Na vida real dificilmente a situação se resolve assim com duas falas, mas resume bem como eu acredito que as coisas funcionem.

Na cena fica muito claro como é absurdo pedir para que alguém se sensibilize com o nosso problema quando este alguém sente uma dor devastadora. Chega a ser cruel pedir empatia com a nossa situação para uma pessoa que se encontra inundada pelos próprios sentimentos. A pessoa simplesmente não ouve. Não há disponibilidade interna para ouvir.


Nessas situações, se eu quiser de fato ter uma conversa saudável, antes de falar sobre os meus sentimentos talvez eu precise me deixar um pouco de lado, ouvir e acolher o que o outro tem a dizer. 

A ansiedade do terapeuta

*texto escrito em abril/2015 e publicado inicialmente no meu blog antigo 
Eu me lembro de uma supervisão do estágio de Psicologia Clínica na faculdade em que eu estava super frustrada. A minha paciente que na semana anterior havia tido um insight (aquele estalo que você tem e tudo parece fazer sentido) e tinha saído da sessão resolvida a mudar várias coisas em sua vida, voltou naquela semana contando novamente tudo o que ela já havia falado desde o começo da terapia, tudo o que a incomodava e que queria mudar. Parecia que ela tinha esquecido o que tinha decidido fazer na sessão anterior. Eu fiquei ouvindo sem saber muito bem o que dizer.

Na supervisão me queixei à professora supervisora dizendo que eu não entendia o que tinha acontecido. Se ela já sabia como resolver o problema dela por que ela não resolvia? A supervisora me deu um puxão de orelha: "Ela vai resolver no tempo dela, não no seu tempo. Segura a sua ansiedade".

Eu percebi que tinha uma visão idealizada da terapia (e muitos pacientes também têm). A gente acha que depois de algumas sessões tudo passa a fazer sentido, uma mudança marcante e transformadora acontece, o terapeuta dá alta para o paciente e todos vivem felizes para sempre. Mas não é assim. Ou raramente é assim.

Estes são os casos que encontramos nos livros, aqueles que o psicólogo escolhe a dedo para mostrar como é bom e como sua abordagem funciona. Só que ele não conta que para cada caso marcante, há uma dezena em que ele se sente impotente sessão após sessão e tem a sensação constante de que nada acontece, nada muda.

Esta mesma paciente que atendi na faculdade em uma outra sessão me disse que ela não tinha esperança de que fosse conseguir resolver a sua situação e que ir à terapia todas as semanas para desabafar como sua vida era difícil era o que deixava mais leve a sua carga e tornava possível continuar vivendo. Neste dia eu vi que a expectativa dela com a terapia era muito diferente da minha. O que eu queria e esperava dela estava além do que ela estava disposta e preparada para fazer naquele momento.

Não é fácil este tipo de atendimento, pelo menos para mim não é. Eu tenho um desejo muito forte de que o paciente mude, resolva, recomece e é difícil controlar a minha expectativa, mas isso é um problema meu, não do paciente. Sou eu quem precisa ter clareza desta minha ansiedade e me controlar para não transmitir este sentimento para o paciente pressionando-o ou cobrando para que ele tome uma atitude que não está pronto para tomar.