sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Será que eu sou uma farsa?

*Texto publicado há um ano no meu blog antigo mas que continua fazendo muito sentido pra mim.

Nem sempre eu consigo colocar em prática aquilo em que acredito. Quando eu ajo em desacordo com o que penso ser o melhor fico me perguntando: eu tenho o direito de escrever sobre isso, defender esta ideia sendo que eu mesma não estou conseguindo agir de acordo com o que falo?

Às vezes fico com um texto pronto sobre como criar os filhos com respeito e empatia, mas não consigo publicar porque no dia anterior perdi a paciência e gritei com as crianças.

Será que eu sou uma farsa?

Tenho pensado muito nisso e me fiz a seguinte pergunta: por que eu escrevo este blog? Para passar uma imagem de mãe modelo? Para ser vista como a prova viva do sucesso da teoria posta em prática? Não. Para falar a verdade tenho até medo de que me vejam assim. Porque eu não sou assim.

Eu escrevo para compartilhar com outras pessoas aquilo que tenho aprendido com as minhas leituras, atendimentos, experiências pessoais. Escrevo para dividir com quem me lê os questionamentos que me faço e as respostas que tenho encontrado. Escrevo porque acredito que algumas coisas que eu sei podem ser úteis para outras pessoas assim como têm sido úteis para mim (coisas que eu ficaria muito feliz se eu tivesse descoberto antes). O objetivo deste blog é ser uma fonte de apoio para quem busca informação relacionada aos temas que aqui abordo.

Entretanto, informação é apenas um tipo de apoio. No que diz respeito à maternidade, muitas vezes temos dificuldade em agir de acordo com o que acreditamos devido ao desgaste físico e emocional. Não é fácil ouvir e acolher tudo o que um dos filhos tem para dizer enquanto o outro te puxa pela barra da saia chorando desesperadamente. Não é fácil brincar com a criança do que ela quer, pelo tempo que ela quer, quando a louça transborda na pia e o jantar precisa ser preparado. E não é fácil pensar numa solução, numa maneira de conciliar tudo isso quando não temos um momento de silêncio para colocar as ideias no lugar.

Ter informação sobre a melhor forma de agir não necessariamente vai mudar a forma como a pessoa age. Para que a informação seja útil é necessário que esta mãe (ou pai, tia, avós) tenha apoio nas coisas práticas do dia-a-dia e tenha suporte emocional. Quando eu não preciso carregar todas as tarefas domésticas nas costas sozinha, quando eu tenho alguém que me ouve e acolhe meus medos, minhas inseguranças, é mais provável que eu consiga rever minhas ações de forma crítica, assimilar novas informações e pensar em mudar.

Escrever e poder reler o que escrevo em outro momento é mais uma forma de me lembrar do que norteia as minhas ações quando eu me perco no meio do turbilhão de culpas e arrependimentos que batem à minha porta.

Se você lê o que eu escrevo e diz para si: eu queria fazer isso tudo, eu queria ser uma mãe melhor, mas é tão difícil... Dá um abraço aqui! Eu também queria, eu também acho difícil. Continuo querendo e me esforçando para isso.

Ter a cabeça tranquila para criar bem os filhos é um privilégio. Nem todo mundo tem. E mesmo quem tem, não tem o tempo todo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Polaridades

Hoje eu resolvi escrever sobre um tema que tem surgido nos meus atendimentos, na minha terapia pessoal, em conversas, leituras... Sabe quando parece que tudo o que você ouve, lê, pensa diz respeito a um mesmo assunto? É isso que tem acontecido, para todo lugar que eu olho vejo polaridades.

A gente costuma se definir e definir os outros com adjetivos. Fulano é arrogante, Beltrano é simpático. Esses adjetivos geralmente se baseiam em observações que fizemos em situações passadas e criam expectativas a respeito de comportamentos futuros. Nós não conhecemos as reações dessas pessoas em todas as situações possíveis, o que temos é uma amostra e o que fazemos com frequência é generalizar algo pontual e criar um rótulo.

Quando esse rótulo é repetido constantemente (pelos outros ou por nós mesmos) é comum começar a aceitá-lo como sendo uma verdade imutável sobre si não se permitindo agir de forma a colocá-lo em questionamento. Como os outros reagiriam se eu, que sou uma pessoa tão doce, de repente tivesse uma reação mais rude ou agressiva?

Os rótulos, as certezas e as verdades imutáveis são prisões que limitam nosso crescimento pessoal, nossa autenticidade e criatividade. Você não acha muito estranho uma pessoa que é doce o tempo todo, com todo mundo, não importa o que aconteça? Ou alguém que é rude em toda e qualquer situação? Eu acho.

Eu gosto de imaginar cada uma das nossas características como um eixo que vai de zero a dez, de doce a rude, de sereno a ansioso, de simpático a antipático, de altruísta a egoísta. E transitamos sobre esse eixo de acordo com aquilo que vivenciamos. Não somos doces ou rudes, altruístas ou egoístas. Somos doces e rudes, altruístas e egoístas. 

Acho importante notar essa gradação que vai de um ponto até o seu oposto para não correr o risco de se forçar a caminhar na direção de um dos extremos desse eixo imaginário. Mudar não é uma batalha, algo que acontece a ferro e fogo. Existe algo mais simples que vem antes disso: perceber como você experimenta esse caminho entre os extremos, o que agrada e o que desagrada nessas vivências, o que você inibe e o que permite vir à tona. A mudança é consequência.


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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Novos caminhos

Ultimamente tenho lembrado muito dos textos do Alberto Caeiro, meu heterônimo preferido do Fernando Pessoa. Ele diz que "pensar é estar doente dos olhos". E de fato, quando pensamos deixamos de ver coisas que podem ser mais importantes do que nossos pensamentos. Deixamos de ouvir, de sentir, de perceber. A super valorização do intelectual subestima a importância das nossas outras formas de relacionamento e de compreensão do mundo.

Há alguns dias desci até o jardim do prédio com o meu filho mais novo, coisa que fazemos praticamente todos os dias. Ele olhou para cima e falou "céu bonito". Eu olhei, estava bonito mesmo, bem azulzinho, sem nenhuma nuvem. Saiu da calçada, pisou na grama e falou "é fofinha". Pisei também, de fato a grama é mais fofinha do que a calçada. Me mostrou um passarinho na janela de um dos apartamentos, o cocô do passarinho no chão, a moça com o cachorro saindo do outro prédio, a moto barulhenta que chegava, o jipe amarelo que chamava a atenção em meio a tantos carros pretos e pratas. Tudo isso em menos de cinco minutos fazendo algo que fazemos sempre. 

Eu sei que o que estou falando é clichê, a gente ouve (e fala) o tempo todo sobre a importância de aproveitar o momento, de estar presente, de se conectar verdadeiramente com as pessoas, mas ouvir e falar a respeito de algo é diferente de vivenciar. "Falar sobre" é diferente de "estar com". Eu sinto que isso está começando a fazer parte da minha vida só agora. E tem feito diferença para mim, pessoal e profissionalmente.

Não é automático notar o que se apresenta à minha frente. Tenho feito um esforço grande para diminuir o espaço ocupado pelas explicações e interpretações dentro de mim, de forma a reaprender a me relacionar com o mundo como uma criança que vê, aponta e questiona o óbvio. 

Recentemente mudei de terapeuta e de supervisora dos meus atendimentos, mudei de abordagem teórica. Não sei se isso me fez mudar o olhar ou se meu olhar já havia mudado e foi ele o responsável por essa busca por algo que me vestisse melhor do que o que eu estava usando antes. Só sei que a mudança foi boa.


Resolvi interromper as atualizações do blog Psicanálise para Iniciantes, até porque já faz um bom tempo que não escrevo especificamente sobre Psicanálise. A partir de agora publicarei os textos neste blog aqui. 

Enfim, é isso. Sejam bem-vindos! :)


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."   
 (Fernando Teixeira de Andrade)