terça-feira, 18 de outubro de 2016

Novos caminhos

Ultimamente tenho lembrado muito dos textos do Alberto Caeiro, meu heterônimo preferido do Fernando Pessoa. Ele diz que "pensar é estar doente dos olhos". E de fato, quando pensamos deixamos de ver coisas que podem ser mais importantes do que nossos pensamentos. Deixamos de ouvir, de sentir, de perceber. A super valorização do intelectual subestima a importância das nossas outras formas de relacionamento e de compreensão do mundo.

Há alguns dias desci até o jardim do prédio com o meu filho mais novo, coisa que fazemos praticamente todos os dias. Ele olhou para cima e falou "céu bonito". Eu olhei, estava bonito mesmo, bem azulzinho, sem nenhuma nuvem. Saiu da calçada, pisou na grama e falou "é fofinha". Pisei também, de fato a grama é mais fofinha do que a calçada. Me mostrou um passarinho na janela de um dos apartamentos, o cocô do passarinho no chão, a moça com o cachorro saindo do outro prédio, a moto barulhenta que chegava, o jipe amarelo que chamava a atenção em meio a tantos carros pretos e pratas. Tudo isso em menos de cinco minutos fazendo algo que fazemos sempre. 

Eu sei que o que estou falando é clichê, a gente ouve (e fala) o tempo todo sobre a importância de aproveitar o momento, de estar presente, de se conectar verdadeiramente com as pessoas, mas ouvir e falar a respeito de algo é diferente de vivenciar. "Falar sobre" é diferente de "estar com". Eu sinto que isso está começando a fazer parte da minha vida só agora. E tem feito diferença para mim, pessoal e profissionalmente.

Não é automático notar o que se apresenta à minha frente. Tenho feito um esforço grande para diminuir o espaço ocupado pelas explicações e interpretações dentro de mim, de forma a reaprender a me relacionar com o mundo como uma criança que vê, aponta e questiona o óbvio. 

Recentemente mudei de terapeuta e de supervisora dos meus atendimentos, mudei de abordagem teórica (da Psicanálise para a Gestalt-terapia). Não sei se isso me fez mudar o olhar ou se meu olhar já havia mudado e foi ele o responsável por essa busca por algo que me vestisse melhor do que o que eu estava usando antes. Só sei que a mudança foi boa.


Resolvi interromper as atualizações do blog Psicanálise para Iniciantes, até porque já faz um bom tempo que não escrevo especificamente sobre Psicanálise. A partir de agora publicarei os textos neste blog aqui. 

Enfim, é isso. Sejam bem-vindos! :)


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."   
 (Fernando Teixeira de Andrade)

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