terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Todo mundo erra

*texto escrito em abril/2015 e publicado inicialmente no meu blog antigo 

Eu tento sempre tratar meus filhos com respeito e carinho, mas às vezes eu erro.

Ultimamente, com um bebê de dez meses que ainda acorda à noite, tenho ficado bem cansada física e emocionalmente. Dormir pouco me deixa irritada e tenho perdido a paciência com as crianças com mais facilidade.

Esta semana estávamos entrando no carro e meu filho jogou o material da escola em cima de umas sacolas de mercado com coisas frágeis. Eu explodi: "Poxa, você não está vendo as sacolas? Como você joga suas coisas assim em cima sem saber o que tem dentro?". E ele me respondeu: "Nossa! Eu não vi, precisava gritar?". Pedi desculpas e disse que não, não precisava gritar. Expliquei que estava nervosa com outras coisas e acabei descontando nele. E ele me disse: "Tá tudo bem, mãe".

Eu já pedi a eles várias vezes para não gritarem um com o outro. Disse que às vezes eu perco a paciência e acabo gritando mas que não quero fazer isso e caso aconteça eu gostaria que eles chamassem a minha atenção pois eu estou errada. E eles fazem. Eles me cobram para que minhas atitudes sejam condizentes com o que peço a eles. 

Uma coisa que eu tenho feito também é avisá-los quando percebo que estou começando a ficar irritada. Alguns períodos do dia são mais tumultuados aqui em casa, momentos em que estou sozinha com os três e tentando fazer várias coisas ao mesmo tempo. Nestas horas, quando eles começam a insistir muito para que eu pare o que estou fazendo para atender um pedido deles que pode esperar eu acabo perdendo a paciência, sendo grossa. Então comecei a dizer assim: "Olha, agora está difícil, não dá para eu parar o que estou fazendo. Eu estou ficando irritada e quando fico assim eu acabo te tratando de um jeito que eu não gosto. A gente pode deixar isso pra depois?". Geralmente eles entendem e até perguntam se podem fazer alguma coisa para me ajudar. Eu tenho minhas limitações e acho importantíssimo que eles saibam disso.

Eu percebo que a maioria das pessoas tem muita dificuldade para admitir seus erros e suas fragilidades, principalmente com as crianças. Acho que há uma cobrança muito grande para ser a mãe e o pai perfeitos, que nunca erram. Quando erram disfarçam o erro, fingem que não foi nada demais, como se reconhecer-se falível fosse abalar a "autoridade" dos pais junto aos filhos (não gosto da palavra autoridade pois me vem a ideia de hierarquia, algo que eu acho que não deveria existir dentro de uma família). Por outro lado, quando a criança "erra", quando seu comportamento foge do esperado pelos pais, isso logo é apontado por eles. Deve ser muito difícil sentir-se a errada e imperfeita convivendo com estes pais que não erram nunca.


Eu não sei qual a utilidade de manter no imaginário da criança esta figura idealizada de pai e mãe. Acredito que a criança tenha muito mais a aprender com pais reais, que erram, reconhecem o erro, se arrependem e pedem desculpas. Admitir que somos imperfeitos nos torna pessoas mais tolerantes. E as crianças aprendem também a ser tolerantes e compreensivas com os próprios erros e com os dos outros.

3 comentários:

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  3. Realmente Sheila, no meu caso sou filha e tenho 20 anos... Acho que cresci alimentando e sendo estimulada a alimentar a crença de que meus pais não erravam. Hoje, depois de todos os anos e acontecimentos que eu vivenciei dentro da minha família, como o próprio divorcio deles, tenho extrema dificuldade de compreender a humanidade dos meus pais, que são falíveis (apesar de ter certeza disso racionalmente); assim como de aceitar as minhas próprias falhas. Realmente, esse é um aspecto muito importante para o desenvolvimento saudável das pessoas, aceitar a realidade, somos feitos de falhas e faltas.

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